Aquecimento altera eixo da terra há 30 anos

O giro do planeta em seu eixo é determinado, em parte, pela distribuição de peso ao redor do globo, da mesma forma que o giro de um pião é determinado por sua forma. Dados de satélite desde 2002 e posteriores já haviam mostrado que as mudanças climáticas estão alterando essa distribuição de peso, em grande parte porque o derretimento das geleiras e das camadas de gelo causaram o deslocamento dos polos Norte e Sul. Aquecimento altera eixo da terra há 30 anos.

É incrível, mas nosso estilo insustentável de viver provocou a alteração até mesmo no eixo do planeta. Desde os anos 90 ouvimos falar sobre uma possível mudança dos polos do planeta. O que teria levado a isso? Alguns cientistas chamavam o fenômeno de ‘deriva polar’.


Nos últimos 30 anos, o eixo terrestre, a linha reta imaginária que cruza o centro da Terra e ambos os polos geográficos, teve uma deslocação acelerada. Segundo a investigação, desde 1980, a posição dos polos (que são os pontos onde o eixo de rotação da Terra cruzam a superfície) mudou cerca de quatro metros no sentido leste.


Mas os pesquisadores não conseguiam descobrir os motivos, porque naquela época não havia observações diretas por satélite da distribuição da água ao redor do globo. Hoje os satélites conseguem a proeza. Foi então que descobriram os motivos.


O derretimento das camadas de gelo nos polos, combinado com o bombeamento de água subterrânea para a agricultura, alterou a distribuição da água no planeta o suficiente para fazer o eixo do planeta mudar.


A atividade normal do planeta leva a que esta movimentação aconteça naturalmente. As alterações das massas podem ser provocadas pelas mudanças na atmosfera, nos oceanos ou na parte sólida da Terra. Contudo, o que a investigação indica, é que a ação humana é um dos motores da aceleração observada desde 1990, isto é, as alterações climáticas.


Em 2002, a NASA e o Centro Aeroespacial Alemão lançaram os satélites Gravity Recovery and Climate Experiment (GRACE), que usavam medições do campo gravitacional da Terra para monitorar mudanças no gelo, na água líquida e na crosta terrestre.


As medições do GRACE


As medições precisas do GRACE permitiram que os geocientistas analisassem as várias causas das mudanças polares na era pós-2002. Estava claro que o derretimento do gelo, impulsionado pelo aquecimento global, tinha influência.



Em 2013, por exemplo, pesquisadores relataram na revista Geophysical Research Letters que o rápido derretimento do gelo na Groenlândia causou uma mudança para o leste do Polo Norte por volta de 2005.


Suxia Liu, hidróloga da Academia Chinesa de Ciências, co-autora do estudo, declarou ao site Live Science: “As descobertas oferecem uma pista para estudar o movimento polar impulsionado pelo clima no passado.”


Criatividade no novo estudo


Descobrir o que causou as mudanças polares antes de 2002, porém, exigiu criatividade. Os pesquisadores sabiam que a deriva polar mudou para o leste em 1995 e que aumentou 17 vezes entre 1995 e 2020, em comparação com 1981 a 1995. Mas eles não sabiam por quê.

Liu e seus colegas usaram as observações do mundo real de como os polos mudaram na década de 1990 e criaram dois cenários possíveis de distribuição de água global para ver qual explicava melhor as mudanças.


No primeiro cenário, as mudanças na distribuição da água ao redor do mundo entre 1981 e 2020 foram semelhantes ao que foi registrado pelo GRACE entre 2002 e 2020.


No segundo, os pesquisadores levaram em consideração as observações do derretimento do gelo durante o período anterior. O segundo cenário, responsável pelo derretimento do gelo, correspondeu melhor ao que realmente aconteceu com a deriva polar, descobriram Liu e seus colegas.


O derretimento do gelo das regiões polares explicou a maior parte da deriva polar, relataram os pesquisadores em 22 de março na revista Geophysical Research Letters; o resto foi explicado pela perda de água de regiões não polares. Como a mudança climática, essas mudanças na distribuição da água foram causadas pelo homem.


A água para agricultura

Os seres humanos bombeiam uma quantidade incrível de água subterrânea para a agricultura e para o consumo. Por exemplo, somente na Índia, em 2010, as pessoas moveram 351 trilhões de litros de água de reservatórios subterrâneos para campos agrícolas, escreveram os pesquisadores em seu artigo.


A Califórnia e o norte do Texas também mostraram grandes mudanças de massa devido ao bombeamento de água subterrânea.


18 bilhões de toneladas de água nos últimos 50 anos

Os especialistas estimam que, nos últimos 50 anos, os humanos extraíram 18 bilhões (18 000 000 000) de toneladas de água de reservatórios subterrâneos profundos, o que nunca foi reposto.


Por causa da física de rotação, o movimento da água subterrânea nas latitudes médias tem um efeito mais forte na deriva polar para a mesma quantidade de água em latitudes mais altas, acrescentaram eles, de modo que essas mudanças se somam rapidamente.

No geral, as mudanças na deriva polar não são perceptíveis na vida diária. Elas podem alterar a duração do dia em um milissegundo ou mais com o tempo, disse Vincent Humphrey, cientista do clima da Universidade de Zurique, que não esteve envolvido na pesquisa.


Fonte: Estadão | Mar Sem Fim

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