Proteger os animais e seus habitats é proteger as pessoas

Enquanto continuamos lutando contra a covid-19, além das medidas para diminuir a contaminação, é hora de pensarmos em como prevenir futuras pandemias


No começo de março completamos um ano de pandemia. No Brasil, alcançamos números trágicos de mais de 330 mil mortes e mais de 12 milhões de casos. A nível global, são mais de 2 milhões de famílias que perderam alguém para o novo coronavírus. Mais do que nunca, reconhecemos a importância em manter o distanciamento social, evitar aglomerações e nos protegermos usando máscaras e lavando as mãos com frequência.



Relação entre animais selvagens e pandemia


Você sabia que 60% das doenças infecciosas emergentes são zoonóticas e acredita-se que 70% delas provêm de animais silvestres?


No caso da covid-19, por exemplo, acredita-se que o surto tenha se originado no mercado de animais silvestres na China e transmitido aos seres humanos. Pesquisas indicam que morcegos e pangolins podem estar envolvidos na transmissão do vírus às pessoas, mas foram as ações das pessoas que criaram o ambiente para que essa transmissão acontecesse.


Mercado de animais vivos para consumo em Jacarta, Indonésia.


A falta de regulamentação e de espaços não higiênicos associados aos mercados de animais silvestres, onde há contato próximo entre animais e humanos, oferece as condições perfeitas para a propagação de patógenos.


“A relação entre animais silvestres e pandemia é totalmente direta. Existem várias hipóteses de onde a covid-19 surgiu. Uma grande hipótese é que veio de um animal selvagem, algum morcego, falam também em pangolim... Sabe-se que o SARS-COV-2 é muito encontrado em diversas espécies de morcegos, isso está relatado há muitos anos. O consumo de animais silvestres fez com que as pessoas tivessem contato direto com esse vírus e ele simplesmente se adaptou a outro hospedeiro, que foi a espécie humana”, explica Flávia Miranda, médica veterinária e Presidente do Instituto Tamanduá.

Esse risco ainda é intensificado pelas condições em que os animais são normalmente manejados em todas as etapas da sua terrível jornada até esses mercados. Um grande número de animais de diferentes espécies é mantido em condições de lotação, causando imenso estresse e enfraquecendo seus sistemas imunológicos.


Tudo isso, somado à proximidade dos humanos com os animais, cria o ambiente ideal para que os patógenos se repliquem, espalhem-se e, potencialmente, infectem pessoas.

Exploração animal, mobilidade urbana e degradação ambiental


Os vírus e bactérias existem há muito mais tempo na Terra do que a população humana. De alguma maneira, eles se adaptaram e conseguiram estabelecer algum mecanismo de reprodução.


“O grande problema que nós estamos percebendo, que, na verdade, deve ter diversos séculos, é que alguns desses vírus vêm sofrendo mutações e conseguem chegar até a população humana. Já foi a SARS em 2002-2003, que alcançou uma parte do mundo; a H5N1, chamada de gripe aviária; a H1N1, chamada de gripe suína e que atingiu quase todo o mundo; o Ebola; o Zika, que nós conhecemos bem... Mas essa história é longa! Passa pela peste negra, a cólera no século XIX... Então é importante a gente perceber que existe esse salto de um nicho ecológico para outro envolvendo a espécie humana. Mas essas pandemias também têm sido muito afetadas pela mobilidade humana. A mobilidade, não só dos aviões, mas também o comércio realizado por navios, trens etc., têm uma enorme capacidade de espalhar esses novos vírus”

Acrescenta Christovam Barcellos, Pesquisador Titular do Laboratório de Informação em Saúde, do Instituto de Comunicação e Formação Científica e Tecnológica em Saúde da FIOCruz.


Além disso, um dos motivos que nos faz ter contato com novos ambientes e patógenos é o desmatamento e a degradação ambiental. A perda de biodiversidade que estamos tendo nos aproxima muito mais dos agentes que estão nesses ambientes, dos animais selvagens que estavam em habitats muito mais preservados e que hoje estão em contato direto com a gente.




Segundo o Inpe, 2020 foi o segundo pior ano de desmatamento na Amazônia Legal desde 2015.


O raciocínio é simples: as bactérias, os vírus, os fungos e os príons são seres que estão aqui, nesse ambiente, há milhões de anos. Nossa espécie é muito mais recente e muito menos adaptada ao meio. Muitas vezes, a gente não tem contato direto com algumas bactérias e vírus que ainda estão em áreas preservadas. A partir do momento que se vai degradando o ambiente, vamos tendo cada vez mais contato com diferentes bactérias e vírus – e isso faz com que a gente se torne mais suscetível a ser infectado com novos agentes”, esclarece Flávia Miranda.


É possível evitar futuras pandemias


Não é de hoje que sabemos que as epidemias zoonóticas vêm crescendo nas últimas décadas. As principais enfermidades vieram dos animais selvagens, do contato direto entre seres humanos e animais: as doenças zoonóticas são responsáveis por mais de dois bilhões de casos de enfermidades em humanos e mais de dois milhões de mortes de pessoas por ano.


“A saúde humana também depende da saúde do animal e vice-versa. Pertencemos ao mesmo habitat, ao mesmo planeta, e o que vai fazer com que isso ocorra com menos frequência vai ser, simplesmente, a noção maior, cada dia mais, da importância da redução do consumo de carne de caça; da importância da manutenção da floresta em pé; do respeito à biodiversidade, de manter os ambientes intactos e a fauna com essa riqueza e abundância; e acreditar que é possível um ambiente onde todas as espécies possam prosperar”, finaliza Flávia.

Devemos proteger a vida em nosso planeta – seres humanos e animais.


Essa pandemia não será a última a menos que acabemos com a degradação ambiental, o desmatamento, os incêndios e com a exploração de animais.

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